Entrevistas

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Entrevista com João Manuel Ribeiro

Por António Ferreira e Sérgio Xavier, em 11/11/2011.

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Luísa Ducla Soares – uma entrevista no dia internacional do livro infantil 

Luísa, lembra-se do dia em que publicou o seu primeiro livro? Em que ano foi, já agora?

Em 1970 publiquei o primeiro livro, mas foi um livro não para crianças. Foi o Contrato que era um livro de poemas, digamos, de intervenção. E enfim, recordo bem esse dia, acho que nunca mais o esquecerei, porque ficamos sempre muito ligados ao nosso primeiro livro. E aquele livro tinha muito a ver com a minha vida quotidiana, com o círculo de amigos com que eu andava, que eram os da Poesia 61. Só dois anos mais tarde é que publiquei o primeiro livro para crianças e de certo modo por brincadeira, só que não pensei que esse facto fosse alterar a minha vida, que foi o que aconteceu. Publiquei A História da Papoila. Fui entregá-lo aos Estúdios Cor, onde trabalhava nessa altura o José Saramago. Fui ter com ele, enfim, pensei, este homem, com certeza, diz-me já que não. Não o conhecia, deixei lá o original, disse-me: «Venha cá daqui a um mês.» passado um mês voltei lá, ele estava muito alegre, bem-disposto e disse-me que publicava o livro, que dentro não sei quantos meses o livro sairia, arranjou-me um bom ilustrador e o livro veio a merecer um prémio. Aliás, dois prémios, porque era o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, que era dado pelo SNI e abrangia também ilustração, de maneira que ia ter os dois prémios. Pelo texto e pela ilustração.

Começou a escrever muito antes de publicar…

Comecei a escrever aos dez anos. Escrevia poemas, contos… mas eu tive um grande tirocínio de contadora de histórias. Na altura, pensei que não tinha qualquer utilidade. Porque eu tinha um irmão – tinha e tenho – que tem menos dez anos do que eu, muitas vezes tinha que tomar conta dele; ele era um miúdo insuportável e era difícil domá-lo, digamos. Como ele estragava muitas coisas e depois eu era culpada por isso resolvi ler-lhe uns livrinhos pensando que era uma atividade um pouco calma. Teria eu talvez 13 anos ou coisa assim. Simplesmente ele não gostava dos heróis daqueles livros, dizia «isto é tudo uma mariquice, não tenho paciência para isto», atirava os livros pelo ar. Então eu pensei, e se eu lhe inventasse umas histórias com uns heróis de acordo com a cabeça dele? E então comecei a fazer histórias completamente loucas, loucas no sentido de divertidas, com as aventuras mais insólitas e hilariantes. E então verifiquei que ele adorava aquelas histórias. E combinei com ele: se te portares bem, eu conto-te meia hora de histórias por dia. Transformei-me numa espécie de Sherazade de trazer-por-casa, não é? E fiz algumas histórias. Elas eram tipo novelas, passavam de um dia para o outro, e algumas demoraram mais de três anos. Na altura pensei, estou para aqui a perder o meu tempo nestas histórias, nem as escrevia, era tudo oral. Simplesmente acho que aí foi a minha grande escola de literatura infantil, porque foi estando diretamente perante uma criança que não fazia cerimónia nenhuma comigo, que me dizia imediatamente aquilo que não gostava, porque aliás ele era muito esperto e vivaço, e assim fui-me habituando a ver as reacções dos miúdos. Às vezes isto é uma grande treta aquilo que nós pensamos que são as crianças, porque as crianças não são aqueles seres imaginados por nós, aqueles anjitos com asas e outras coisas, não é?

Fantástico e real, até que ponto são elementos fundamentais à escrita infantil? Isto a propósito de um dos seus livros mais conhecidos, O Soldado João, publicado pela primeira vez em 1973 e que fazia alusões veladas à Guerra Colonial.

Olhe, fiz esse conto para ser publicado no Diário Popular e foi cortado pela Censura na íntegra. Eu fi-lo pensando na Guerra Colonial porque acho que todos os assuntos, mesmo ‘impróprios´ devem ser abordados pelas crianças. Porque elas não vivem numa redoma. Elas vivem no mundo real, elas assistem aos telejornais, elas veem isto, veem aquilo, e porque não falar-lhes da guerra, e porque não falar-lhes da fome, e porque não falar-lhes das injustiças que existem, e porque não falar-lhes da Censura, e porque não falar-lhes dos atentados aos direitos das crianças de que elas são vítimas, porque não alertá-las para isso? E a guerra colonial foi muito importante na minha época. Porque eu nasci em 39, os meus amigos, todos, foram chamados para a guerra. Uns exilaram-se, grande parte deles foi para fora; foi o Medeiros Ferreira, foram muitos outros… outros foram para lá, tiveram experiências altamente traumáticas e acho que isso, no fundo, para nós, raparigas, que ficávamos cá, o nosso espírito também ia para lá.

Era o fazer a guerra de outro modo.

Exactamente. Então eu escrevi essa história na praia de Armação de Pêra. E de certo modo todas as minhas histórias têm que ver com qualquer coisa real. Eu estava a olhar para o mar e, ao mesmo tempo, a pensar no que estaria a passar-se no outro lado do mar. E no toldo ao meu lado estava um homem, que eu admirei até muito, e admiro, que é o João José Cochofel, poeta. Era um homem que, enfim, eu acho seria o mais anti-militar que se possa imaginar no mundo. Ele estava ali, chamava-se João, e pensei: «Olha se este desgraçado fosse agora chamado para a guerra, o que é que ele faria? Ele, aliás, era um homem muito desajeitado e tal, era um homem gentil, muito delicado, muito sensível e muito bom! Acho que era mesmo para ele impossível estar numa guerra. E aquilo, de repente, deu-me vontade de rir, pensar aquele homem numa guerra. Pensei: aquilo dá-me vontade de rir mas ao mesmo tempo é uma coisa super-séria. Tinha ali, eu ando sempre com cadernos e lápis por toda a parte. Então, olha, sentei-me ali na areia e escrevei de seguida aquela história do Soldado João, imaginando a ele – claro que ele não é aquela personagem, que aquele João vinha de sachar milhos, ao passo que o outro vinha de um palácio de Coimbra, não é?, servia as coisas em bandeja de prata, os criados dele e não sei quê… Mas o espírito era o mesmo.

Quais diria serem os recursos estilísticos e de linguagem mais importantes na escrita infantil?

Eu acho que não há receitas. Eu posso dizer a receita que eu uso, não é? Tal como se me pergunta pelas receitas do bacalhau, há não sei quantas, cada um faz à sua maneira. Mas uma coisa a que eu gosto de recorrer é o humor (10’54”), porque acho que uma coisa contada às crianças de uma maneira muito, enfim, muito séria, muito chata, imediatamente as afasta de um livro. Se nós conseguirmos apresentar uma mensagem que temos todo o interesse em apresentar e o fizermos de uma maneira um pouco lúdica e com um certo humor à mistura, eu acho que elas assimilam de uma maneira completamente diferente. Não se vão esquecer daquilo. Se nós utilizarmos, inclusivamente, jogos de palavras, palavras que lhes vão ficar na memória, elas vão fixar até aquelas frases, porque aquilo é também uma brincadeira. Nós podemos brincar, sei lá… com uma playstation, mas também podemos brincar com palavras. Isso acho que é muito importante, aprender a gostar das palavras.

Do muito contacto que tem tido com as escolas, como sente hoje o apreço das crianças pelo livro e pela leitura?

Bem, eu vou imenso às escolas, eu pelo menos três vezes por semana vou para as escolas. Há dias em que tenho seiscentas crianças. Mas em geral tenho talvez 200, 300 por dia. São muitas. E a ideia que eu tenho é a seguinte: os miúdos da pré-primária, os que não sabem ler, ligam muito a um livro, sabem livros inteiros de cor, eles vibram com os livros como se eles fossem jogos e interessam-se muito por vir a saber ler para dominar a sua própria independência. Os miúdos da primária leem muito, leem muito de certo modo também motivados pelas campanhas que agora são feitas, do aLer+ e não sei quê. (…) e há escolas que desenvolvem uma tal dinâmica que é impossível as crianças não lerem. Porque elas entram mesmo num jogo de leitura. (…) A leitura também é uma moda! Dizem que se devia dizer: tu lês, ele lê, eu leio. Porque os miúdos se veem os outros fazer uma coisa, querem copiar na mesma, não é? (…) Nessa escola todas as aulas paravam e todos os miúdos liam, as professoras liam, mas obrigavam a cozinheira a ler, as empregadas da escola a ler, se ia lá o jardineiro o jardineiro tinha de parar esses dias, se ia lá o carteiro entregar as cartas, prendiam-no, obrigavam-no a ler durante dez minutos, os pais que iam saber alguma informação tinham também de parar os dez minutos para ler. Quer dizer, aquilo tornou-se ao mesmo tempo uma coisa divertida para os miúdos. Depois, até arranjaram uns inspetores da ASAE. Esses liam noutros minutos consecutivos e andavam a verificar se a leitura era cumprida. Não sei se isso dará um ar assim um bocadinho pidesco, mas enfim, parece que dava algum resultado.

 Há males que vêm por bem…

Sim, então havia uns cofres, onde os miúdos punham, além dos minutos que liam por dia, os minutos que liam em casa. E os minutos que os pais liam também eram contabilizados. (16’30”) Eu acho uma coisa importante, porque um pai ler com um filho tem uma importância fundamental. Não quer dizer que a criança não consiga ler, mas há um elo que se estabelece e um elo fundamental que vai fazer com que a criança tenha muito mais gosto pela leitura e que ela faça parte de uma partilha afetiva. (…)

Das inúmeras personagens que criou sente algum apreço especial por alguma?

Há algumas de que eu gosto mais do que de outras, evidentemente. Até aqui publiquei 110 livros, já escrevi mais, não é?… tenho escrito livros sobre figuras imaginárias, tenho escrito alguns livros sobre figuras reais, e dos que escrevi sobre figuras reais há duas que me marcam especialmente. Uma delas é o Eça de Queiroz, escrevei vários livros sobre ele. Foi um autor que eu comecei a ler muito cedo, até porque não havia aquela literatura para adolescentes, no meu tempo. Passava-se diretamente da literatura infantil para a literatura para adultos ou então para uma pseudoliteratura cor-de-rosa e horrorosa que existia na época. Então eu aos 12 anos comecei a ler o Eça de Queiroz. E li-o todo de seguida e claro que o li de uma maneira diferente daquela que leio agora, porque todos os anos vou lendo alguns livros de novo e encontro sempre coisas diferentes. Portanto, gostei muito de escrever sobre o Eça. Estive recentemente a escrever um livro, que está para ser ilustrado, sobre o meu pai. E o meu pai foi para mim um herói. Porque nós não temos só aqueles heróis que fazem parte da história, que fazem parte de um imaginário colectivo. Muitas vezes há heróis que viveram connosco lado a lado, que partilharam connosco as coisas mais simples da vida. E acho que uma das maiores heroicidades é aquela de viver o dia-a-dia de uma maneira heróica. Esses foram os meus heróis reais. De resto, houve outros heróis: o Soldado João é outro de que gosto muito. O Senhor Pouca Sorte também é engraçado. Eu gosto da Princesa da Chuva, é uma personagem de que eu gosto, que foi uma criança que, enfim, foi fadada lá por umas fadas e teve a infelicidade de fazer chichi em cima de uma das fadas quando ela a ia fadar. A fada irritou-se e resolveu fadá-la como princesa da chuva, e sempre por onde ela passasse havia de chover. Toda a gente pensava que isto ia ser uma desgraça para a rapariga (…). Simplesmente, a rapariga, chegou uma altura, em que resolveu sair do seu palácio e viver a sua vida e transformar aquilo que era uma maldição numa bênção, ir para os desertos, ir para todos os sítios onde não chovia e transformar em terras férteis aquelas que estavam a princípio condenadas, como ela, a um mau destino (…).

Portanto, trata-se de transformar algo negativo em positivo, estratagema que a Luísa gosta muito de utilizar nas usas histórias.

Exactamente. Por acaso tenho essa tendência. Porque eu acho que não há nada completamente bom nem completamente mau. E há sempre um lado escondido, e bom, em todas as coisas más.

Tantas décadas passadas, continua a escrever com o mesmo entusiasmo inicial?

Sim. Há certas paixões que nunca morrem, há outras que morrem mesmo.

Que importância tem a comemoração do dia internacional do livro infantil, sobretudo numa época em que parece haver dias para comemorar tudo e mais alguma coisa…?
Às vezes até demais! Outro dia fui a uma escola e comemorava-se, simultaneamente, o Dia da Poesia, o Dia da Árvore e o Dia da Floresta. Eram três coisas importantes, mas…

Claro, mas isso para lhe perguntar se de facto acha importante que exista e se comemore esse dia?

Eu acho que é muito importante que exista o Dia Internacional do Livro Infantil, até… enfim, não tanto para o cidadão comum, que não dá por ele. Mas quem vai às escolas, como eu vou, verifica que esse dia é um dia que tem uma importância muito, muito especial. Que é um dia largamente preparado e todas as crianças acabam por saber o que é esse dia e, através das crianças, os pais e as pessoas próximas.

Que livro poderia sugerir para leitura num dia como esse?

Eu nunca sugiro um livro, sabe porquê? É das coisas que mais me perguntam. Diga um livro bom para os sete anos, diga um livro bom para os dez anos… eu nunca digo, porque eu acho que um livro é como um amigo. Eu não lhe vou dizer a si, olhe aquele senhor é um bom amigo para si porque ele tem imensas qualidades. São coisas que exigem uma tal empatia que o que é bom para uns não é bom para os outros (…).

A revista «Ler», comemorando os seus 100 números, elegeu 100 livros. Nem um só de literatura infantil. Que comentário tal lhe merece?

Acho que isso talvez revele que para um determinado número de pessoas a literatura infantil é um subproduto. Eu não concordo com isso. Evidentemente há liberdade de pensamento, não é? E acho que algumas obras de literatura infantil são obras de toda a Humanidade, que podem ser lidas por toda a gente com gosto e que, portanto, essa segregação não tem razão de ser, principalmente numa altura em que há muita gente a dedicar-se à literatura infantil e que há livros de grande qualidade. Simplesmente, acredito que quem fez essa escolha não os conhece, ou não seja sensível à literatura infantil. Eu sou pela liberdade. Cada um escolhe aquilo que gosta.

Por Pedro Teixeira Neves, em 2/05/2011.

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Em que altura da sua vida teve a convicção de que tinha o dom para a escrita?Em criança lia muito, mas durante a adolescência o ímpeto para a leitura esmoreceu. Só mais tarde, quando entrei para a universidade, voltei a senti-lo, então muito mais forte e consciente do que antes. Nessa altura, devorava livro atrás de livro e pensava: “Eu também sou capaz de fazer isto. Eu também sou capaz de transpor o mundo à minha volta e, sobretudo, o mundo dentro da minha cabeça para uma página com palavras e frases.” A verdade é que tinha histórias e ideias antigas que queria deitar cá para fora. Apesar de tudo, isso só aconteceu uns anos mais tarde. Como se o simples facto de saber que podia fazê-lo fosse suficiente. Creio que me chegava escrever as histórias apenas no pensamento. Sempre tive a sensação de que enquanto não houvesse ninguém que lesse o que eu escrevia então não havia necessidade de escrever. Claro que o exercício da escrita serve o autor de várias formas, mas no limite não passa de um meio de comunicação com o exterior.

Sente de alguma forma o peso do apelido que transporta?
Antes do peso de um apelido – seja ele qual for – existe o peso de todos os apelidos que ao longo dos séculos fizeram Literatura. E essa é uma carga que todos os escritores deveriam trazer consigo, porque a humildade é fundamental, ajuda a manter os pés no chão e a objetividade intacta. Por outro lado, é necessário alimentarmos a convicção de que o nosso trabalho poderá acrescentar algo aos livros que outros apelidos escreveram. É um equilíbrio complicado.

 Os contos que escreve baseiam-se mais na ficção ou na observação do que o rodeia?

Tudo é importante, porque tudo existe. Mesmo aquilo que é considerado imaginação existe, pelo menos na cabeça de uma pessoa. E se for dito, então passa a existir em palavras e em imagens nas cabeças de outras pessoas. Os fantasmas existem, na medida em que é possível interferirem com a vida de alguém que acredite neles. O mais interessante é a sopa que se faz com tudo o que existe, a seleção dos ingredientes, a proporção de cada condimento, a procura de algo com um sabor novo ou inesperado. O mundo real é sempre um bom ponto de partida. Pessoalmente, eu gosto de por em causa o mundo real e a imaginação ou a ficção são ótimos mecanismos para o fazer.
“De modo que, nessa noite maldita, preparava-se para desafiar quem quer que lhe aparecesse pela frente, à espera de conseguir um novo golpe no corpo que precisasse de ser costurado às primeiras luzes da manhã”.

Alguns dos seus contos têm fins tristes, surpreendentes ou são terrivelmente irónicos. Quem o lê fica com a sensação de que o seu olhar carrega algum pessimismo na observação que faz aos tempos que correm. São gritos de revolta, David Machado?

É mais racional e consciente do que isso. Aquilo que pretendo é encontrar pontos de vista alternativos para situações vulgares. Mesmo que possa parecer absurdo, ou irónico, ou triste. Há sempre ambivalência em tudo. Nada possui apenas um lado, muito menos em literatura. Enquanto escritor, eu admiro o nosso mundo tal como ele é, com todas as mortes e todo o sofrimento e todos sorrisos e todas as pessoas que se amam. Porque tudo isso representa o ser humano e não vale a pena escondê-lo. As pessoas são solidárias e alegres, claro, mas também são egoístas e pérfidas. E não há ninguém só mau e não há ninguém só bom, da mesma forma que não há ninguém só triste ou só feliz. Todos somos uma soma destas partes, por isso há sempre mais do que uma forma de olhar para alguém.

 Se tivesse de escolher o nome de um autor com quem mais se identifica, quem escolheria? Podemos perguntar-lhe que outros escritores de expressão portuguesa admira? 

Durante muito tempo a minha resposta seria Gabriel Garcia Marquez e Mario Benedetti, acrescidos da trupe de escritores sul-americanos da segunda metade do século passado. O cruzamento entre realidade e lenda atrai-me, porque acredito que é assim que as pessoas são em qualquer parte do mundo. A religião é o expoente disso: a partir do momento em que uma pessoa acredita, então passa a ser verdade. Ainda recorro a esses autores com uma certa frequência, mas estou mais afastado. Nos últimos anos tenho lido cada vez mais autores anglo-saxónicos, pela ironia, pela clareza do texto e das ideias, pelo humor.

Quanto aos portugueses, José Saramago encabeça a minha lista.

E já agora, qual foi o último bom livro que leu?

 Vou dizer três: “Meio-irmão”, de Lars Saabye Christensen; “Extremamente alto, incrivelmente perto”, de Jonathan Safran Foer; “Velho Gringo”, de Carlos Fuentes.

 Quer falar-nos nos seus novos projetos? Quais são os seus objectivos literários?
Tenho um novo livro infantil já escrito, pronto para ser ilustrado e depois publicado. Estou a meio da escrita de um romance e já tenho os primeiros capítulos de um livro para um público juvenil.

Em relação aos meus objetivos, eles são continuar a encontrar palavras e frases que me permitam compreender melhor o mundo. Enquanto puder quero escrever todos os dias, várias horas por dia, porque me custa pensar que não aconteça assim. E quero ser lido.

Entrevista ao Portal da Leitura, em 22/12/2008, post cruzado.

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Manuel António Pina: “Costumo dizer que me nasci a mim mesmo no Porto”

Diz que viveu o dia em que soube que era seu o Prémio Camões 2011 como “se estivesse fora da realidade”. Manuel António Pina, escritor nascido no Sabugal, encontrou no Porto a sua cidade. “O Porto assenta-me perfeitamente. Provavelmente é aqui que vou morrer e hei-de ficar a fazer parte da cidade fisicamente”, diz ao P24.

Disse que receber este prémio foi inesperado. Mas, agora que absorveu a notícia, que sentimentos o habitam?

Como se estivesse fora da realidade, como se tivesse a viver numa realidade paralela. São muitas solicitações. A minha vida ficou muito alterada hoje, espero que amanhã volta a ser normal. Mais do que estranheza, estranhidão.

Interessa-lhe pensar se merece ou não o prémio?

Custa-me falar disso porque parece que estou a fazer uma rábula de modéstia. Penso muitas vezes se se justifica, mas acho que isso deve acontecer a toda a gente. Há bocado disse a alguém se não teria feito batota, se isto é justo, se não é justo.

Rosa Maria Martelo disse-nos que a sua produtividade em múltiplos suportes – poesia, crónica, prosa, literatura infantil – é uma forma de responder a um dilema: “a ideia que a literatura já disse tudo o que há dizer, mas que, por outro lado, deve continuar porque está tudo por dizer”.

Tenho muita consciência disso. No meu primeiro livro tenho um poema que tem 2 versos assim… Como é, mesmo? “Já não é possível dizer mais nada / mas também não é possível ficar calado. Assim se passa o poema / a mais e a menos”. Não resolvo isso, não tenho consciência isso. Será pela tal diversidade? Talvez sim, mas não faço isso deliberadamente.

Nasceu no Sabugal, mas dir-se-ia que é um escritor fundamentalmente do Porto. Que relação tem com a cidade?

Vim aos 17 anos. Nasci no Sabugal, mas costumo dizer que me nasci a mim mesmo no Porto. Os meus amigos mais antigos são do Porto, as minhas memórias, grande parte das minhas memórias – e nós somos feitos de memórias – são do Porto. É uma cidade onde me sinto muito confortável. Há roupas que nos ficam muito largas e outras que ficam apertadas demais. O Porto assenta-me perfeitamente. Provavelmente é aqui que vou morrer e hei-de ficar a fazer parte da cidade fisicamente.

Muitos dos seus livros estão esgotados. Acredita que o Prémio Camões mudará a situação?

Tenho muita dificuldade em aceitar reedições. Provavelmente sim, as editoras vão querer. Mas eu ofereço alguma resistência: não gosto, sinto-me desconfortável. São livros que sinto que já não são meus.

Entrevista ao Porto24, em 12/05/2011, por Pedro Rios.

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